sábado, 4 de junho de 2011

Não passa

Fica aqui dentro, firme. Forte, não, porque é um pequeno e fino fio, quase nada. Não dá nem pra ver. Mas da pra sentir. Se move, faz barulho, marca presença. O descobri agora a pouco, quando perguntava 'quem?' ironicamente, quando falavam do seu nome. Quando gritava pro mundo minha eterna felicidade por não ter você. Quando passei a beijar outras bocas e reparar que realmente, beijo encaixa. Quando começei a ignorar tudo e olhar pros lados. Enquanto você ficava na minha frente. Focava naqueles papeis por cima da mesa, nas lágrimas da amiga, nas reclamações da mamãe. Eu só não olhava pra você. Não diretamente. Mas no meio dos meus papeis tinha sua última carta. Nas lágrimas da minha amiga continham toda a minha dor. Nas palavras da minha mãe ela dizia tudo que eu queria falar pra você. Até reparar que quanto mais eu ignorava, mas eu voltava. Ser humano é assim. Quando você diz que não gostem que te cutuquem, é quando vão pressionar o dedo contra sua pele contínuas vezes. Quando você diz que não vai procurar e vai esquecer que você procura cada passo, cada rastro. Sua vó já dizia, quem procura, acha. E quando você acha, você chora. E fiquei assim, entre a cruz e a espada. Se te ignorava, você voltava automaticamente. Se te encarava, entrava em depressão. Se não ocupo meus pensamentos com coisas que indiretamente me levam a você, penso em você, diretamente. É quando a gente deita a cabeça no travesseiro e se cala. Nem precisa chorar, não. É uma dor pequena demais pra chorar. Mas é insistente. Você começa a pensar, pensar, pensar e conclui, todas as noites uma nova causa, um novo porque e um novo 'se'. Todo mundo diz que você não valia a pena, não vale e não valerá. Nem pago pra ver. Mas é bom pensar. As vezes dói mais e eu faço a única coisa que ainda resta: rezar. Peço a Deus baixinho, pra não assustar - "Leve ele daqui, leva? Tira ele do meu coração?" - Peço pra ele um pouquinho de justiça e que se pelo menos ele não te arranque daqui, me leve um pouquinho pra ai, também. Não quero um novo amor, uma nova companhia. Não quero essas babações de fim de tarde, filme, chocolate quente. Não é revolta, não. Eu tenho certeza que vou amar outra pessoa na vida. Claro que vou. Mas é que eu gosto do que eu me lembro, da pessoa que você foi. Gosto do nosso amor, que nunca morreu. Essa dor é só minha, e não quero dividí-la, diminuí-la ou aumentá-la, de forma alguma. Você nunca entenderia, então eu guardo ela aqui, comigo. E por mais que eu ande radiante por aí e já nem fale mais seu nome, por mais que eu dançe e sorria muito por todos esses corredores; Calada e pensativa eu sou as rachaduras do espelho, que por mais que tenha se reconstruído, é possível ver as malditas, malditas rachaduras. É você quem movimenta isso aqui, senhor. Quando você quiser mudar sua imagem, venha e mude. Só não me forçe a voltar a de antes, isso eu não consigo mais. As rachaduras são as lembranças, você sabe bem quando as fez. Como na frase lida: Vou amar o amor da minha vida pra sempre. Mas foda-se esse amor. Te amo, mas não te preciso. Não te quero e não lamento por não te ter. Hoje vivo até bem, e quem diria; sem você. 

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