terça-feira, 7 de junho de 2011

Foi crescer.

Assim que ela me viu, largou as malas e veio ao meu encontro. Me abraçou como se fosse a alguns anos atras, em que ela estava realmente disposta a ter minha companhia. Ela era naquele momento a amiga que eu conhecia. Assim que olhou nos meus olhos, respirei fundo e engoli o choro. Precisava da minha fala inteira, sem oscilações ou soluços.
- Antes que você suba nesse ônibus, eu preciso falar um milhão de coisas pra você. Eu sabia que você não ia ter tempo de escutar, mas ó, eu escrevi. Olha que irônico, eu escrevi. Lê, mas só quando você estiver longe daqui. Longe o bastante pra não poder desistir de ter ido.
- Desculpa não ter vindo mais cedo... Seja o que for, eu posso ficar e cuidar de você. Você sabe, não é?
- Não... Não pode, não. Eu testei. Por todos esses últimos meses eu precisei de alguém pra cuidar da falta que você fez. Você não cuidou. Você nem viu a ferida. Ninguém viu, ninguém curou. Mas não faz mal, não. Meu corpo tratou de fazer a casquinha... Casquinha que você não vai arrancar, não. Mas lê. Vai me fazer um bem saber que pela última vez você vai escutar meus problemas. E responde, se puder. Não com conselhos e ajuda. Mas pra falar da tua vida, ta?
Ela chorou, chorou, chorou. Me abraçou e cogitou mil vezes ficar. Mas eu a coloquei naquele ônibus, fiz com que ela sentasse na cadeira e arrumei suas malas acima de sua cabeça. E lhe beijei o olho esquerdo. Só pra ela entender que eu não a odiava. Na verdade, eu a amava tanto que quis que ela fosse. E ela foi. Teimosa do jeito que era, abriu a carta assim que desci, mas ela não parou, não. Não voltou, nem nunca respondeu. Não sei porque, mas ela nunca mandou carta. Foto. Recado. Telegrama. Nem cartão-postal. Já sabia. Tinha acabado muito antes daquela despedida. A rodoviária foi um capítulo não-escrito. Uma coisa que não aconteceu.


"Acabei de fechar o celular. Estava fora de área. Já faz cinco dias que ele esta assim. Você esta fugindo de mim? Claro que não. Minha melhor amiga não precisa disso. Qualquer problema, ela falaria comigo. Todos as noites vou escovar os dentes, me encaro no espelho e recito essas palavras pra mim mesma. No outro dia você atendeu, e eu fiquei tão feliz. Contei das minhas férias, e do quanto teria sido melhor com você por perto. Fiz coisas meio loucas naquele mar. Me apaixonei por redes na varanda, quero comprar uma pra nossa casa. Lembra que prometemos que iríamos morar juntas? Então, eu posso ter uma rede? Se for problema, eu desisto. Mas quero morar com você, ainda. Depois de quase duas horas no telefone, eu precisava dormir, e dormi como um anjo. Sabia que tudo estava bem, e que no outro dia mataríamos aula pra comprar chocolate. Mas você nem olhou direito pra mim. Sorriu forçado no começo da aula, e bem no final você encostou no meu ombro e falou que seria bom se comprássemos chocolate um dia desses. Que eu só precisava esperar sua vida acalmar, porque estava tudo uma loucura. Aí eu reparei que eu já não fazia parte da sua vida. Da sua loucura. Você nem me contou que sua vida estava assim. Você nem desabafou, nem pediu conselhos. Se for os estudos, me chama; eu posso te ajudar. Mas você não quis contar do que se tratava. Porque eu não estava mais nesses planos. Acho que esse é o problema das amigas de infância. Elas seguem toda uma vida na mesma ingenuidade, acreditando nas mesmas coisas. Eu acreditava em você, sabe? Você me prometeu várias coisinhas quando tínhamos 12 anos, e eu levei a serio. Eu cumpri todas as minhas promessas, também. Mas eu não contava com não contar com você. Não contava com uma mudança de planos. Não contava com a sua mudança. Achei que estaríamos ali, pra sempre, como as melhores amigas que poderíamos ser. Mas não foi assim, não. Te perdi num canto que não consigo buscar. Aí eu parei de correr atras. Eu sei o quanto você se irrita com pessoas insistentes. E mantive a fé que você voltaria. Depois de uns dias você me liga, falando que vai morar longe. Que vai embora. E pior, que vai embora porque quer. Porque decidiu crescer. Custava crescer, comigo? Falou que vai embora em alguns dias. Que vai dizer adeus. Que não vai mais me ver todos os dias, que não vai ter abraço, não vai ter riso. Eu não me importava com essa distância, não. Coisas verdadeiras se mantêm, sabe? Mas eu já sabia que não era real. Nosso único laço era que dividíamos do mesmo espaço geográfico. Eu ainda podia te forçar a me ver todos os dias. Mas e agora, como vai ser? Não vai ser. Aí você marcou de me ver na rodoviária as três. Seu ônibus sai as seis, e nós podíamos ficar todo esse tempo comendo chocolate. Tenho a impressão que você vai se atrasar e vai chegar aqui, um pouco antes do ônibus sair. Mas eu comprei chocolate. Esta junto da carta. Come sozinha, se lambuza. Vou comprar uma barra pra mim aqui, também. Mas era só isso, meu bem. Só queria te mostrar de como eu vi tudo isso, e como doeu. Mas olha, você falou que vai embora pra crescer. Quero que você cresca, viu? Cresça muito, e que se torne uma pessoa incrível. Mas olha, quando puder, sem compromisso, sem pressa, vem me ver crescer, também? Quando você já for bem crescida, volta pra me ver? Só pra comer chocolate. Vai com Deus, boa viagem. Te guardo sempre aqui, meu bem. E te amo, viu? Sem tamanhos, sem limites. "

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