sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Sabe aquele cubo mágico que você me deu? Lembra? Pois é, depois de meses fuçando naquela porcaria, ontem de noite, sem explicações, eu consegui. Ele ta aqui, na minha frente, e todos os cubinhos brancos estão juntinhos, assim como o vermelho, o verde... Eu solucionei o problema do cubinho, e automaticamente, o meu. Não sei como, no último estalo do cubinho, quando a última peçinha branca se encaixou, saiu uma coisa aqui de dentro. Um carma, uma alma, sei lá o que era, mas eu só sei que ela foi embora. Aquela angústia, e aquela vontade de chorar, sabe? Não, você não sabe, mas eu sentia isso. Ela foi embora junto com as confusões do cubo. Eu me lembro bem no dia que você o entregou pra mim. Era agosto, bem no começo do mês. E ele tava prontinho, não tinha nada de errado com o cubo, além do fato dele estar perfeito. E você riu muito quando eu começei a desorganizar tudo. Porque era uma característica nossa: somos complicados. Nós não gostamos das coisas em seu devido lugar. As coisas precisam estar um pouco fora de ordem pra gente se sentir aliviado. E foi assim que eu fiquei, depois de acabar com a harmonia das cores do cubo. E eu o guardei. Mas desde o dia que você foi embora que eu fuço essas caixas pra resolver o problema do cubo. Porque o cubo agora, representava toda a nossa confusão. Todas as coisas que eu não disse, todas as coisas que você não sentiu, todas as conversas que não tivemos e todas as coisas que ficaram no ar. E era por isso que eu ainda sentia essa mágoa. Porque nós não tínhamos terminado ainda. Eu sentia toda essa confusão, todas essas dúvidas, e todas essas dores que nós tanto ignoramos. E o cubo ficou por todo esse tempo confuso e guardado. Ninguém podia resolver o problema, porque nós o escondemos, nós acreditamos que o tempo iria nos ajudar a esquecer do cubo. Pois é, nós esquecemos, mas ele continuou doendo aqui dentro. Até que eu o achei, e doeu muito mais. Mas eu sabia que se resolvesse o problema do cubo, você iria embora, porque não existe mais nada em comum entre nós, além desse brinquedo. Pois é, e foi no último estalo, na última peçinha branca se encontrando com as outras oito, que você foi embora, junto com essa dor, essa mágoa e essa angústia. E esse cubo vai ficar emcima do meu criado-mudo. Porque eu não vou me esquecer dele, não vou me esquecer de você, e não vou me esquecer da dor que vocês me causaram. Ele vai ficar aqui, pra nunca mais complicar, pra fazer com que você nunca mais volte.
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