domingo, 15 de setembro de 2019

O significado de Vanessa é borboleta. Da lagarta à liberdade, eu sou o casulo.

Tenho saudade da garota que não vinha aqui desabafar.
Você sabe e eu sei e todo mundo sabe que eu choro em palavras. 
Vir aqui é meu atestado de crise. Coloquem os cintos, pois estamos em uma.

Meses ignorando os sintomas e sinais, na esperança que fossem passageiros.
Mas as coisas simples passam a ser coisas dolorosas e densas demais, e todos começam a perceber. 

Reunimos toda energia para entrar em uma conversa ou responder provocações com o humor esperado, mas as vezes falhamos e desabamos em público, sem força alguma para se reerguer.
O interessante é que não falta apenas energia para se reestabelecer, mas falta interesse em estar bem. Realmente não quero estar feliz novamente, pois será frustrante sentir essa felicidade reduzida, sentir que não será possivel ser tão feliz como pude um dia, e entender que nunca mais estarei no meu máximo potencial. Não quero viver de nenhuma migalha.

E continuo fazendo o que tenho que fazer. Me apresento no trabalho todos os dias, sorrio para os clientes e acaricio a cabeça da minha namorada. Jogo papo pro ar com meus familiares e tomo uma cerveja com meu pai aos finais de semana. No fundo, uma voz tilintando em minha cabeça, pedindo que aquele dia não necessariamente termine bem, mas que simplesmente termine. 

Quando me deito, estou terrivelmente cansada e meu sono que antes me consumia oito horas noturnas, pode se estender até quatorze. Agora eu durmo muito pra estar ausente o tempo todo. E como pouco porque o vazio é impreenchível. Os dias vão em câmera lenta, e, honestamente, eu não sei a diferença de quinta para um domingo. São todos iguais.

E vai se tornando mais difícil, meus amigos não me encontram, minha família não consegue mais estabelecer contato, e eu me condeno a conviver apenas comigo mesma por mais algumas semanas até isolar todos completamente.

Não é triste e nem solitário. É vergonhoso. A maior parte do tempo, tenho vergonha do que faço e do que não faço. Morro de culpa e quero pedir desculpas a todos vocês, mesmo que nada tenha acontecido. Me perdoe por isso também. 

Devido a minha total falta de proposito há um imenso abismo entre nós. Agora você já sabe disso e por fim desistiu de estabelecer contato. Eu não estou aberta a nenhuma aproximação. E esta tudo bem. Não consigo acumular energia pra isso, também. Vou te deixar passar.

Minha cartada final é procurar ajuda, pois dessa vez não consegui sair da crise sozinha. Na verdade, alguma vez eu sai?
Espero que você procure ajuda também. Vai ser doloroso essa vida sem mim.


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Barulho na tranca, alguém abre a porta.

- Quem esta ai?
- Oi! Sou eu, o Edu! Você ainda esta aqui?
- Sim.
- Cara, já fazem meses! Eu vim pra mostrar o apê pro novo inquilino.
- Eu sei... é que... eu não consigo fazer a mudança. As caixas ainda estão por aqui... em algum lugar.
- Como você consegue morar no meio dessa bagunça?
- Sei lá. Fui ficando. É minha bagunça agora.
- Já foi nossa bagunça.
- É.
(Silêncio)
- Eu preciso liberar pro novo inquilino.
- Você não quer que eu arrume a bagunça? Eu posso ficar mais alguns dias, você pode me ajudar e vamos organi...
- Carlos, não. 
- Por que não?
- Eu demorei a encontrar esse novo inquilino. Ele não vai querer ver um antigo morador aqui. Você precisa ir.
- Quanto ele vai pagar? Eu quero negociar contigo.
- Não tem negociação. A chave já esta com ele.
- Mas você nem me deixa tentar, Edu. A gente pode organizar nossa bagunça!
- Sua bagunça.
- É... minha.
- Essa bagunça agora é do novo inquilino, Carlos. Deixa ai, vamos embora.
- Mas Edu....
- Vamos.

A porta se fecha. Portas trancadas. O espaço enfim esta vazio. Bagunçado, mas vazio.

- Então é isso? Cada um pro seu canto?
- Sim, Carlos. Tchau.
- Tchau.
(Silêncio)

- Edu?!
- Oi.
- Você sabe que eu sou o proprietário, né?
- Sei.

sábado, 2 de julho de 2016

Dor

Hoje não deu. Hoje não tem música que vai animar ou companhia que vai ajudar. Não tem jeito. A gente fecha os olhos, bebe, reza, fuma, vira madrugada, reproduz falácia e movimenta um mundo inteiro pra fugir da dor. Mas tem dia que não dá. A dor fica esperando nossas tentativas cessarem e os atalhos inúteis finalizarem pra simplesmente sentar na mesa e falar “Não da pra mudar de cômodo sem passar por mim, meu bem. Eu sou a porta.” E ai você se dá conta que não tem como fugir.

E quando digo fugir, estou te avisando: Não tem nem como fazer o caminho contrário sem passar pela dor. Imagine essa casa, essa casa de três cômodos, onde o primeiro era onde você estava: uma vida feliz, um relacionamento estável, um emprego favorável, bem estar e qualidade de vida. Passa-se sorrateiramente para o segundo cômodo, onde estamos agora: Estamos fingindo que mantivemos o bem estar do primeiro cômodo, quando, na verdade, estamos no fundo do poço. Enfeitamos o porão e deixamos a luz fraca pra que ninguém veja os ratos e a sujeira. E lá vamos nós, tentando novamente ir para o terceiro cômodo: Acesso negado. A dor, como espectadora fiel, tem nos observado, aguardando o momento final em que nos rendemos e percebemos que: Não tem jeito, meu amor. A saída é por aqui. Pelo caos, choro, luto e dor. Se engana aquele que então, prefere retornar ao primeiro cômodo. Se antes seu escape fora sorrateiro e imperceptível, quero lhe avisar: Terás que atravessar outra porta, meu amor. Até pra voltar, tem dor. Aceitas a indicação que te dou: Quando mais rápido fizer a passagem, mais rápido acaba o sofrimento.


A passagem é dolorosa, mas sei que sobreviverás. Força, fé. Persiste na dor. Ela sabe como recompensar. E posso te garantir: A vista é espetacular. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Boa garota

Era só o que eu queria que você fosse. Uma boa garota. Você poderia apenas ter sido boazinha, e me tratado bem, e me amado, e me beijado suavemente. Ou você poderia ter contado no início de tudo, que, você definitivamente era a rainha dos escorpiões. Que você se disfarça de sapo pra não precisar entrar na história.

Eu tenho passado os últimos treze anos da minha vida tentando vender um papel de vilã que sempre te pertenceu.

Você chega de mansinho, fingindo ser uma boa garota enquanto observa meu desespero para esconder meu coração mole por trás dos espinhos e da agressividade. Mas você sabe: teatro acaba, cortinas se fecham e acabam-se as farsas. Você não foi uma boa garota. Eu não sou a vilã da novela. E no fim das contas nem eu nem você prestamos. E também não somos a vilã de nada.

Somos seres humanos que sangram, erram e acertam. A gente se encontrou no erro. 
Se é da minha natureza ser grosseira, é da sua fingir de boazinha para outros. Se é da minha natureza ser controladora, é da sua ser manipuladora com seus choros e sua falsa sensibilidade. Se é da minha natureza trair, é da sua também. Pá.
A gente se encontrou no erro.

Lembra-se de como eu te chamava? Era meu apelido carinhoso referente ao seu peso. É o nome de uma linha de ônibus que eu sempre brincava falando que era sua.

Se você tiver oportunidade, procure sobre brigas entre tubarões e baleias. É sensacional. Tem reportagens em que o tubarão não teve chance. Outras, a baleia foi exterminada. 

Não tem vencedor por aqui, entende? A gente perdeu. 

E, se você perceber, é sempre uma briga pela carne. Sim. É carnal. Não me sinto mal. Você é bonita de ver. De sentir. De comer. 

Enfim…
Você não pode ser o mar. Não merece ser tanto. Você é o ser que se andasse comigo seríamos imbatíveis. Seriamos os dois maiores seres desse oceano. Mas em contrapartida é meu inimigo mortal. 

Os tubarões nadam sozinhos, como eu já disse. 

Eu só queria que você fosse uma boa garota. Por que eu sou controladora. E você fingiu ser uma boa garota por longos anos, porque é manipuladora. Mas agora nós nos descobrimos seres humanos. 

Espero que você tenha enfim se despido pra mim. Ficado nua. Espero poder ver você agora, como realmente és. Estou nua também. 

Pelo menos isso. 

Você não foi uma boa garota.


Mas pelo menos agora você é real.

Tubarões

Gosto do sangue. Você sabe disso. Eu talvez finge que sabe. Sempre me olhou com seus olhos de piedade. Nunca me deu crédito quando te dizia que eu era um monstro. Mas eu sou. E aqui vai a prova disso. Eu gosto do sangue. 

Quando você me disse estar disposta a sangrar pela forma mais bonita que já conheceu – eu – eu só pude pensar numa coisa: Eu quero até a última gota. Quero os órgãos, as tripas, os ossos e músculos. Eu quero cada veia, artéria. Me dê seus tendões, seus cabelos, suas unhas, teus dentes. Eu quero os mucos, a saliva, as fezes, as partes censuradas, eu quero até aquilo que mais fede: eu quero sua alma.

E você, gentilmente, quer me dar tudo. Você esta disposta a salvar essa relação parasita. E é tão cômodo permitir que você dance pela minha vida, fazendo aquilo que quer: Você, e sua necessidade de me agradar. De se doar inteira pra mim. E eu, na minha necessidade de viver as custas da sua felicidade. De te sugar inteira.

Você publica os textos em que fala do amor próprio resgatado, e de como tem sido incrível superar e voltar a vida. Realmente seria incrível, se fosse real. Te escrevo agora sobre isso. Após sugar uma boa parte de você pra mim, eu possuo uma pequena parte pura. Mas é como a Lua num crepúsculo. Em breve ela desaparece no céu negro. Em breve é sugada pelo lado mal. Então, te escrevo com pressa, antes que o sapo em mim se torne novamente o escorpião, para te suplicar, e te avisar, mais uma vez: Vá.

Sei que você irá cansar de se doar inteira pra mim. Mas eu não. Eu nunca me cansarei. E depois que eu começar… Não posso parar. Você sabe. Ou finge que sabe.

Existe algo podre aqui dentro. Merda pura. Você conhece o ditado: “Merda: quando mais se mexe, mais fede”. Eu estou abrindo as feridas, cutucando as infecções. Tudo fede agora. Eu estou pronta pra surtar. Pra feder por completo. E as coisas vão ficar feias por aqui. Não existe mais espaço pra você tentar me ajudar. Agora inicia minha auto-sabotagem, e ninguém irá me parar. A única coisa que você pode fazer, é partir. Vá embora antes que eu termine de levar o resto de suas virtudes. Antes que eu sugue o resto de você para minhas entranhas. Sei o que vou fazer contigo se você permanecer. Eu não terei piedade, eu não me lembrarei dos momentos bons. Eu não me recordarei do quanto te amei. Não há mais nada aqui, além da vingança sórdida e lenta. Afaste-se, antes que eu inicie todo o processo e não reste mais nada de nós. Te peço que leve a sérios teus textos de auto-ajuda e superação. É hora de ir. E você sabe disso.

Os tubarões nadam sozinhos.


Tristeza

Veja só o que ela virou.
Um saco de merda.

Eu sinto o mal humor. Ele sai pelos meus poros. Deus.
Eu voltei a ser aquele saco de pedras sendo empurrado e puxado para todos os cantos. “A gente quer te ajudar” - eles dizem. Mas eles já não suportam mais a negatividade.
Merda.
Eu estou tão só e triste novamente. Eu estou ouvindo aquela música que não posso de jeito nenhum escutar.
Oh, Céus.

Dezembro esta chegando, amor.
O surto de dezembro era você.
Sempre foi você.

E sempre vai ser você.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

To com saudade dele

Verdade, verdade é que ta foda. Descobri que o amor da minha vida encontrou o amor da vida dele. Puta que pariu. É claro que eu sabia das possibilidades. As probabilidades eram claras: Se ele não esta com você, uma hora estará com outra. Mas vocês sabem como funciona a esperança... Se ele ainda não está com ninguém, é porque em algum lugar, com alguma explicação exotérica, onde os cosmos de alinham esta marcado. Ele esta destinado a me encontrar no fim da estrada. É porque ele irá se casar comigo. Entrei de cabeça nas comédias românticas Hollywoodianas e me ferrei.

Não tem cosmo, não tem destino, não tem coincidências. O amor da minha vida já comprou as alianças douradas, vai se casar com uma mulher que eu sequer consigo odiar. Ela faz medicina. Faz trabalho voluntário. É loira e peituda. Sorriso brilhante. Melhor amiga da minha sogra. Digo... Ex-sogra. Era a mulher que eu inocentemente desejei que ele encontrasse quando terminamos. Sabendo que no inconsciente eu queria mesmo era que ele me encontrasse. Eu, com minha barriguinha de cerveja, cabeleira castanha, dente amarelado de café e inimiga da sogra.

Trinquei os dentes e embalei um sorrisão. Minha amiga já me puxou pro canto e avisou “Esquece de vez. Ele vai casar”. É. Parece que vai, mesmo. O que fazer? Já escutei Caetano, fui na cartomante, joguei búzios e tarô. Fiz psicanálise. Nem Freud suportou. As gavetas já estão vazias há quatro anos. O coração foi preenchido quatro vezes. Viajei os quatro cantos do mundo. E ele vai se casar dia quatro do mês que vem.

E eu vou lembrar o quanto ele gostava quando eu ficava de quatro, de quando ele despedia três vezes, fechava a porta e voltava de novo, pra despedir pela quarta vez. Vou me lembrar de quando ele contava das três ex-namoradas, e de como, agora, eu sou a quarta. Dos nossos quatro filhos. Vou me lembrar de quando planejamos que nosso quarto não teria cama, nem armário, nem nada. Só um colchão. Nosso amor surrado que ia ficar guardado dentro de quartinho de um apê de dois quartos, geladeira vazia e coração cheio.

O destino não trouxe meu amor de volta. O destino levou o amor da minha vida pro amor da vida dele.  E não tem nada que eu possa fazer. Não tem música ou lugar que caiba meu coração. Não tem ombro amigo nem ninguém que me faça esquecer os quatro anos com o amor da minha vida que agora tem o amor da vida dele, quatro anos depois.

Há oito anos eu conheci o amor da minha vida, mas esse oito não foi infinito pra nós. É pra mim. Infinitamente infinito o amor da minha vida.


Verdade, verdade, é que ta foda. Tô com saudade dele.