terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Tubarões

Gosto do sangue. Você sabe disso. Eu talvez finge que sabe. Sempre me olhou com seus olhos de piedade. Nunca me deu crédito quando te dizia que eu era um monstro. Mas eu sou. E aqui vai a prova disso. Eu gosto do sangue. 

Quando você me disse estar disposta a sangrar pela forma mais bonita que já conheceu – eu – eu só pude pensar numa coisa: Eu quero até a última gota. Quero os órgãos, as tripas, os ossos e músculos. Eu quero cada veia, artéria. Me dê seus tendões, seus cabelos, suas unhas, teus dentes. Eu quero os mucos, a saliva, as fezes, as partes censuradas, eu quero até aquilo que mais fede: eu quero sua alma.

E você, gentilmente, quer me dar tudo. Você esta disposta a salvar essa relação parasita. E é tão cômodo permitir que você dance pela minha vida, fazendo aquilo que quer: Você, e sua necessidade de me agradar. De se doar inteira pra mim. E eu, na minha necessidade de viver as custas da sua felicidade. De te sugar inteira.

Você publica os textos em que fala do amor próprio resgatado, e de como tem sido incrível superar e voltar a vida. Realmente seria incrível, se fosse real. Te escrevo agora sobre isso. Após sugar uma boa parte de você pra mim, eu possuo uma pequena parte pura. Mas é como a Lua num crepúsculo. Em breve ela desaparece no céu negro. Em breve é sugada pelo lado mal. Então, te escrevo com pressa, antes que o sapo em mim se torne novamente o escorpião, para te suplicar, e te avisar, mais uma vez: Vá.

Sei que você irá cansar de se doar inteira pra mim. Mas eu não. Eu nunca me cansarei. E depois que eu começar… Não posso parar. Você sabe. Ou finge que sabe.

Existe algo podre aqui dentro. Merda pura. Você conhece o ditado: “Merda: quando mais se mexe, mais fede”. Eu estou abrindo as feridas, cutucando as infecções. Tudo fede agora. Eu estou pronta pra surtar. Pra feder por completo. E as coisas vão ficar feias por aqui. Não existe mais espaço pra você tentar me ajudar. Agora inicia minha auto-sabotagem, e ninguém irá me parar. A única coisa que você pode fazer, é partir. Vá embora antes que eu termine de levar o resto de suas virtudes. Antes que eu sugue o resto de você para minhas entranhas. Sei o que vou fazer contigo se você permanecer. Eu não terei piedade, eu não me lembrarei dos momentos bons. Eu não me recordarei do quanto te amei. Não há mais nada aqui, além da vingança sórdida e lenta. Afaste-se, antes que eu inicie todo o processo e não reste mais nada de nós. Te peço que leve a sérios teus textos de auto-ajuda e superação. É hora de ir. E você sabe disso.

Os tubarões nadam sozinhos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário