Gosto do sangue. Você sabe disso. Eu talvez finge que
sabe. Sempre me olhou com seus olhos de piedade. Nunca me deu crédito quando te
dizia que eu era um monstro. Mas eu sou. E aqui vai a prova disso. Eu gosto do
sangue.
Quando você me disse estar disposta a sangrar pela forma mais bonita que já conheceu – eu – eu só pude pensar numa coisa: Eu quero até a última gota. Quero os órgãos, as tripas, os ossos e músculos. Eu quero cada veia, artéria. Me dê seus tendões, seus cabelos, suas unhas, teus dentes. Eu quero os mucos, a saliva, as fezes, as partes censuradas, eu quero até aquilo que mais fede: eu quero sua alma.
E
você, gentilmente, quer me dar tudo. Você esta disposta a salvar essa relação
parasita. E é tão cômodo permitir que você dance pela minha vida, fazendo
aquilo que quer: Você, e sua necessidade de me agradar. De se doar inteira pra
mim. E eu, na minha necessidade de viver as custas da sua felicidade. De te
sugar inteira.
Você
publica os textos em que fala do amor próprio resgatado, e de como tem sido
incrível superar e voltar a vida. Realmente seria incrível, se fosse real. Te
escrevo agora sobre isso. Após sugar uma boa parte de você pra mim, eu possuo
uma pequena parte pura. Mas é como a Lua num crepúsculo. Em breve ela
desaparece no céu negro. Em breve é sugada pelo lado mal. Então, te escrevo com
pressa, antes que o sapo em mim se torne novamente o escorpião, para te
suplicar, e te avisar, mais uma vez: Vá.
Sei
que você irá cansar de se doar inteira pra mim. Mas eu não. Eu nunca me
cansarei. E depois que eu começar… Não posso parar. Você sabe. Ou finge que
sabe.
Existe
algo podre aqui dentro. Merda pura. Você conhece o ditado: “Merda: quando mais
se mexe, mais fede”. Eu estou abrindo as feridas, cutucando as infecções. Tudo
fede agora. Eu estou pronta pra surtar. Pra feder por completo. E as coisas vão
ficar feias por aqui. Não existe mais espaço pra você tentar me ajudar. Agora
inicia minha auto-sabotagem, e ninguém irá me parar. A única coisa que você
pode fazer, é partir. Vá embora antes que eu termine de levar o resto de suas
virtudes. Antes que eu sugue o resto de você para minhas entranhas. Sei o que
vou fazer contigo se você permanecer. Eu não terei piedade, eu não me lembrarei
dos momentos bons. Eu não me recordarei do quanto te amei. Não há mais nada
aqui, além da vingança sórdida e lenta. Afaste-se, antes que eu inicie todo o
processo e não reste mais nada de nós. Te peço que leve a sérios teus textos de
auto-ajuda e superação. É hora de ir. E você sabe disso.
Os
tubarões nadam sozinhos.
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